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BAÚ


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Este projecto expositivo e de diálogos é um lugar para subjectividades. Feito de conversas e obras artísticas, faz-se do arquivo de tantas coisas que tocam de tantas formas diferentes questões e pensamentos extraídos deste que é o conceito central: Confidência, de Mariana de Almeida Nogueira.



À vasta mansidão das tuas águas
Confiei promessas minhas sagradas
Tejo meu sob a rosa do céu
Arde a tua foz no grito da minha voz.


Confidência, Mariana Almeida Nogueira              




Ao construí-lo, o motivo é abarcar em rede (rede onde todos os membros deste corpo se cruzam, desviam, interagem entre si) uma dimensão expositiva paralela à que serve a exibição da obra: até onde se quis trazer o sujeito e onde o próprio se dá a ver, mas onde pode ou não ser encontrado.

Para esta rede, implicou-se que o gesto confidencial seria inseparável da prática artística - proposta sobre a qual assentaram as ténues directrizes para a construção deste momento. Os convites feitos aos autores que integram o “Baú” surgiram de pontes intuitivas, criadas entre objectos artísticos e a matéria nuclear deste arquivo e, lembraram a criação de lugares, onde reflectir sobre a existência desta forma de comunicação - que é a de confidenciar e a sua poética - no universo pessoal e individual de cada um.





Joana:  Consegues encarar - e então, como encaras - na tua própria relação com a escrita de poesia, este tipo de partilha/entrega, de que o teu poema fala?


Mariana:  A poesia é a minha forma de pôr alguma ordem no que vejo, sinto, vivo. Ao escrever o mundo, dou-lhe um sentido. Para isto a prosa não me serve, preciso da brutalidade da poesia, de encerrar nos versos a beleza e a angústia que há em todas as coisas. Talvez por isso as minhas confidências sejam pouco importantes. A partir do momento que escrevo uma estrofe, ela encarrega-se de escavar a alma de quem a lê e desenterrar as confidências que aí encontra.


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Joana:  Este poema fala-me da confidência – de promessas sagradas – em gesto de agonia, talvez de algo pesado, amargo; ou mesmo de uma confidência quase arrependida, arriscada, ou sábia da amarra que adveio. No entanto, retive-me principalmente sobre a última frase, onde assumo uma relação de sintonia entre o sujeito que confidência e o seu confidente.

A ideia de confidência aponta imediatamente  para segredo, intimidade, talvez até culpa. Dentro desta ideia surgem vários laços de palavras, como confiança, vulnerabilidade, expectativa. Coragem? A verdade é que esta é uma noção que parece ter várias leituras, que pode suscitar diversas definições e propósitos para o gesto que realiza a confidência. Há uma curiosa nuance entre um carácter de fragilidade e um carácter de convicção na ideia de confidenciar com alguém (ou algo). Mesmo quando tento descortinar a palavra, e encontrar um conceito, há margem para interpretações e conotações díspares. Por exemplo, quando traduzido para o inglês, confidência seria confidance, mas que entretanto suscita a palavra confidence, que realmente se traduz na palavra confiança e mais precisamente, convicção. Ou mesmo confidente, que se traduz para confidant e mais uma vez alude à fonia de  confident, que em português será confiante, seguro, certo. Estas são relações entre signos e significados que me impelem a desconstruir e explorar a noção de confidencialidade.

Na a proposta de desconstruir e construir o conceito de confidência, passei a reflectir sobre a importância do sujeito confidente (ou falta dela). Este confidente que é passível de: ser tudo ou ser nada; vivo ou inanimado; singular ou plural;  que interpreta ou não possa interpretar; que não possa sequer alguma vez responder ou que venha até corresponder com outra confidência. De qualquer modo, a existência de um confidente – ou identificar algo passível de o ser – é (intrínsecamente) necessária para que o sujeito confidencie, para que este acto de exposição possa sequer ser realizado.

Acabei por me inclinar sobre a extensão desta leitura até ao campo da prática autoral. Como é que o sujeito artista confidência na sua prática e com a sua obra? Pode sequer confidenciar pela obra? Penso que as formas e as origens dos confidentes do artista se estendem por várias possibilidades, desde termos formais – plásticos, materiais – a termos referenciais – culturais, políticos.

No fundo, creio que a base confidencial é uma dimensão indiscernível da realidade do autor – uma que, assim sendo, coloco como introdução de um processo por interpretação que só pode ser subjectivo.